11/28/2025

O que eu fiz (com o que fizeram de mim) sobre a FLIM



Em tempos de FLIM, nada como incentivar a criação de texto e a leitura. Então, sentem-se, porque lá vem textão.

Bom, vocês se lembram quando houve a censura do Prefeito, Anderson Farias, com relação ao desconvite, de participação na FLIM, à jornalista Milly Lacombe, certo? Sim, foi uma censura e ponto! E como lidar com isto estando à frente da Academia Joseense de Letras (AJL)?

No ímpeto juvenil de fazer “política da boa vizinhança”, optei pela não manifestação de uma nota oficial da AJL, naquele momento, por algumas razões: Primeiro, por uma tentativa de blindar a instituição, numa vã compressão que seria um “duelo de titãs”, entre o prefeito e a AFAC (Associação para o Fomento de Arte e Cultura), responsável pela organização da FLIM; Segundo: para não dar palanque a um censurador; e terceiro: para respeitar o posicionamento da AFAC, colocando a AJL à disposição para possível reconstrução da FLIM, caso fosse de interesse mútuo.

E foi aí que as coisas começaram a complicar para o meu lado...

Fui apoiado por alguns acadêmicos por este meu pensamento e posicionamento, entretanto, fui hostilizado e até ofendido por outros acadêmicos, que chegaram a dizer que eu estava em busca de uma autocracia, por exemplo. Também foi aí que eu aprendi que deveria levar as decisões para o coletivo, mesmo não funcionando, como veremos a seguir.

A AFAC esperou o prefeito dizer que gostaria de ter um evento com mais escritores locais, demorou a soltar uma Nota Oficial e quando o fez, na minha humilde interpretação, esta nota falou nada com coisa nenhuma. A FLIM foi adiada e quem ganhou com isso? O prefeito e a jornalista censurada! E quem perdeu com isso? A população! Simples assim!

A poeira abaixou e eu fui contatado para uma reunião com AFAC cuja pauta foi a realização da FLIM numa nova data. A sugestão foi clara e direta: a participação da AJL seria exatamente a mesma da FLIM adiada, ou seja, mediações das mesas literárias com escritores locais. Não gostei, expus que esperava que a AJL fosse convidada para reorganizar e participar das mesas principais da FLIM e que eu não teria interesse e disponibilidade em participar neste formato, mas que levaria para votação ao colegiado e ressaltei que poderia haver uma resposta negativa. Nesta reunião ficou claro que cabe à AFAC a organização da FLIM, sendo ela a única e exclusiva responsável pelo formato e realização da FLIM, cujo propósito é ser um evento nacional e não local, por isso a necessidade de convidado conhecidos nacionalmente. Levei para votação e o resultado foi unânime: a AJL não apoiaria a AFAC nesta reedição da FLIM. Então, como presidente, levei para votação do colegiado se deveríamos ou não emitir uma Nota Oficial, desta vez, retirando o apoio à AFAC para reedição da FLIM. E com resultado apertado, optou-se pela não publicação desta nota e agora eu entendi o porquê, até hoje me perguntarem, se AJL está ou não apoiando a AFAC: alguns acadêmicos estão na programação como mediadores das mesas com escritores locais.

Vejam: retirado o apoio da AJL para a reedição, alguns acadêmicos se ofereceram e ofereceram seus coletivos para apoiar a AFAC e outros acadêmicos optaram por manter-se na programação. E tudo bem, mesmo não cumprindo o resultado da votação, óbvio que eles são livres para fazer as suas escolhas!

Como, para mim, o combinado não sai caro, eu votei em não apoiar e não participar desta reedição da FLIM por algumas razões bem simples, a saber:

Vocês sabem como uma instituição cultural viabiliza, financeiramente, um evento da magnitude da FLIM, por exemplo? A instituição precisa ser uma empresa do terceiro setor, ou seja, empresa privada e de utilidade pública, e pode ser uma fundação, como a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, ou um instituto, como Instituto Embraer, ou uma associação, como Associação para o Fomento de Arte e Cultura (AFAC). Esta empresa do terceiro setor capta recurso financeiro de patrocinadores (pequenas, médias e grandes empresas) e através do chamamento público por aplicação de leis de incentivo municipal, estadual e federal, como a Lei de Incentivo Fiscal, Lei Paulo Gustavo e Lei Rouanet. Só um adendo: Se tem alguma coisa que funciona neste país, são as leis de incentivo à cultura.

No caso da FLIM, por exemplo, é preciso uma quantidade considerável de recurso financeiro, que eu não sei qual é, mas não dever ser pequena, dada toda infraestrutura, profissionais, shows e convidados envolvidos. A AFAC já captou toda esta verba e precisa utilizar e justificar, centavo por centavo, caso contrário, poderia responder judicialmente se não “gastasse” este recurso até a data estipulada. Mas isso vale para AFAC ou para qualquer outra instituição de utilidade pública.

Outra forma de uma empresa do terceiro setor captar recurso é quando ela mesma abre um edital, ou seja, ela faz um chamamento público de prestadores de serviços, profissionais etc. A AFAC, por exemplo, através desses editais, realiza diversas atividades no Parque Vicentina Aranha, como música, ginástica, feira de artesanato e feira gastronômica.

Então a AFAC precisa realizar a FLIM no formato que ela montou o projeto de participação nesses editais de leis de incentivo, e como eu poderia concordar com a participação de influencers digitais e apresentadores de TV, no palco principal, ao invés de escritores locais? Desculpem-me, respeito o trabalho de cada um, mas cada um na sua, não é hora e palco para isso. Mas esta é minha humilde opinião.

Quem apoia (ou apoiava) a AFAC, na seleção do edital dos escritores locais para participação na FLIM, é (ou era) a Academia Joseense de Letras. Este ano o número foi reduzido para quinze escritores locais, isso mesmo, quinze escritores locais para uma cidade de setecentos mil habitantes, tida como a mais inteligente do país. Quinze escritores para setecentos mil habitantes... cidade inteligente para qual ponto de vista?

Eu não sei o valor, mas sei que os artistas que se apresentarão no palco principal e os convidados das mesas principais recebem pela sua participação. E vocês sabem quanto a Academia Joseense de Letras recebeu e receberia pelo seu apoio e participação ao longo desses dez anos de FLIM? NADA! E vocês sabem quanto os escritores locais receberam e receberão este ano para participar da FLIM? NADA! Nada não, ganham água e uma mesa para expor seus livros.

Qual a dificuldade de incentivar, financeiramente, instituições e escritores locais? Não estou falando de valores absurdos, estou falando sobre o suficiente para pagar o estacionamento, fazer um lanche e tomar um chopp na área externa, assim como os demais.

Outras perguntas podem surgir, como: A AJL também é uma empresa de utilidade pública? Por que a AJL não abre editais para realização de eventos? São excelentes perguntas e, respondendo, sim, a AJL tem CNPJ e utilidade pública e não realizamos editais por ausência de interesse e disponibilidade da maioria dos acadêmicos e por desconhecimento técnico, coisa que quem sabe fazer, não compartilha para não gerar concorrência.

Por fim, tive uma longa conversa, por telefone, com a Zenilda Lua. Não somos próximos, mas quero ser próximo dela e ela de mim. Ela não fala, ela ensina com as palavras, ditas e escritas. Sou fã dela e do seu trabalho. Ela foi convidada, junto à escritora Sônia Gabriel, para reorganizar a FLIM e não aceita o título de curadora e eu concordo. Zenilda tem recebido duras críticas por aceitar este desafio, mas ela está fazendo o que o coração lhe pede e sua vocação demanda: assistência social através da literatura. Tem meu respeito, minha admiração e meus votos de sucesso.

Com relação à Semana Cassiano Ricardo, que a convite da AFAC, acontece durante a FLIM, não sei dizer e não é da minha conta se eles recebem algum valor financeiro para participar. O que eu sei é que admiro seu curador, o jornalista Júlio Ottoboni por seu relevante e persistente trabalho em manter viva a memória de Cassiano Ricardo e toda a nossa história. Também tem meu respeito, minha admiração e meus votos de sucesso.

Confesso: meu erro foi acreditar demais que alguém faria alguma coisa pela Academia Joseense de Letras ou que que haveria uma união entre acadêmicos e escritores para fazermos algo novo, mas não, a censura venceu, lidamos com pouco dinheiro e muita, mas muita vaidade. Eu não tenho bagagem psicológica e política para prestigiar este e outros eventos no momento, não tive a grandeza e a generosidade dos meus confrades e das duas referências culturais citadas anteriormente.

Isso foi o que eu fiz (com o que fizeram de mim) sobre a FLIM.

Sigamos, porque aqui, Pode Cornettah... até o prefeito censurah!

Grande abraço e até breve!

Eduardo Caetano