Bom, vocês se lembram quando houve a censura do Prefeito, Anderson Farias, com relação ao desconvite, de participação na FLIM, à jornalista Milly Lacombe, certo? Sim, foi uma censura e ponto! E como lidar com isto estando à frente da Academia Joseense de Letras (AJL)?
No ímpeto
juvenil de fazer “política da boa vizinhança”, optei pela não manifestação de
uma nota oficial da AJL, naquele momento, por algumas razões: Primeiro, por uma
tentativa de blindar a instituição, numa vã compressão que seria um “duelo de
titãs”, entre o prefeito e a AFAC (Associação para o Fomento de Arte e Cultura),
responsável pela organização da FLIM; Segundo: para não dar palanque a um
censurador; e terceiro: para respeitar o posicionamento da AFAC, colocando a
AJL à disposição para possível reconstrução da FLIM, caso fosse de interesse
mútuo.
E foi aí que as
coisas começaram a complicar para o meu lado...
Fui apoiado por
alguns acadêmicos por este meu pensamento e posicionamento, entretanto, fui
hostilizado e até ofendido por outros acadêmicos, que chegaram a dizer que eu
estava em busca de uma autocracia, por exemplo. Também foi aí que eu aprendi
que deveria levar as decisões para o coletivo, mesmo não funcionando, como
veremos a seguir.
A AFAC esperou
o prefeito dizer que gostaria de ter um evento com mais escritores locais, demorou
a soltar uma Nota Oficial e quando o fez, na minha humilde interpretação, esta
nota falou nada com coisa nenhuma. A FLIM foi adiada e quem ganhou com isso? O
prefeito e a jornalista censurada! E quem perdeu com isso? A população! Simples
assim!
A poeira abaixou e eu fui contatado para uma reunião com AFAC cuja pauta foi a realização da FLIM numa nova data. A sugestão foi clara e direta: a participação da AJL seria exatamente a mesma da FLIM adiada, ou seja, mediações das mesas literárias com escritores locais. Não gostei, expus que esperava que a AJL fosse convidada para reorganizar e participar das mesas principais da FLIM e que eu não teria interesse e disponibilidade em participar neste formato, mas que levaria para votação ao colegiado e ressaltei que poderia haver uma resposta negativa. Nesta reunião ficou claro que cabe à AFAC a organização da FLIM, sendo ela a única e exclusiva responsável pelo formato e realização da FLIM, cujo propósito é ser um evento nacional e não local, por isso a necessidade de convidado conhecidos nacionalmente. Levei para votação e o resultado foi unânime: a AJL não apoiaria a AFAC nesta reedição da FLIM. Então, como presidente, levei para votação do colegiado se deveríamos ou não emitir uma Nota Oficial, desta vez, retirando o apoio à AFAC para reedição da FLIM. E com resultado apertado, optou-se pela não publicação desta nota e agora eu entendi o porquê, até hoje me perguntarem, se AJL está ou não apoiando a AFAC: alguns acadêmicos estão na programação como mediadores das mesas com escritores locais.
Vejam: retirado
o apoio da AJL para a reedição, alguns acadêmicos se ofereceram e ofereceram
seus coletivos para apoiar a AFAC e outros acadêmicos optaram por manter-se na
programação. E tudo bem, mesmo não cumprindo o resultado da votação, óbvio
que eles são livres para fazer as suas escolhas!
Como, para mim,
o combinado não sai caro, eu votei em não apoiar e não participar desta
reedição da FLIM por algumas razões bem simples, a saber:
Vocês sabem
como uma instituição cultural viabiliza, financeiramente, um evento da
magnitude da FLIM, por exemplo? A instituição precisa ser uma empresa do
terceiro setor, ou seja, empresa privada e de utilidade pública, e pode ser uma
fundação, como a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, ou um instituto, como
Instituto Embraer, ou uma associação, como Associação para o Fomento de Arte e
Cultura (AFAC). Esta empresa do terceiro setor capta recurso financeiro de
patrocinadores (pequenas, médias e grandes empresas) e através do chamamento
público por aplicação de leis de incentivo municipal, estadual e federal, como
a Lei de Incentivo Fiscal, Lei Paulo Gustavo e Lei Rouanet. Só um adendo: Se
tem alguma coisa que funciona neste país, são as leis de incentivo à cultura.
No caso da FLIM,
por exemplo, é preciso uma quantidade considerável de recurso financeiro, que
eu não sei qual é, mas não dever ser pequena, dada toda infraestrutura,
profissionais, shows e convidados envolvidos. A AFAC já captou toda esta verba
e precisa utilizar e justificar, centavo por centavo, caso contrário, poderia responder
judicialmente se não “gastasse” este recurso até a data estipulada. Mas isso
vale para AFAC ou para qualquer outra instituição de utilidade pública.
Outra forma de uma
empresa do terceiro setor captar recurso é quando ela mesma abre um edital, ou
seja, ela faz um chamamento público de prestadores de serviços, profissionais
etc. A AFAC, por exemplo, através desses editais, realiza diversas atividades
no Parque Vicentina Aranha, como música, ginástica, feira de artesanato e feira
gastronômica.
Então a AFAC
precisa realizar a FLIM no formato que ela montou o projeto de participação
nesses editais de leis de incentivo, e como eu poderia concordar com a
participação de influencers digitais e apresentadores de TV, no palco principal, ao invés de escritores locais? Desculpem-me, respeito o trabalho de cada um,
mas cada um na sua, não é hora e palco para isso. Mas esta é minha humilde opinião.
Quem apoia (ou
apoiava) a AFAC, na seleção do edital dos escritores locais para participação
na FLIM, é (ou era) a Academia Joseense de Letras. Este ano o número foi
reduzido para quinze escritores locais, isso mesmo, quinze escritores locais
para uma cidade de setecentos mil habitantes, tida como a mais inteligente do
país. Quinze escritores para setecentos mil habitantes... cidade inteligente
para qual ponto de vista?
Eu não sei o valor,
mas sei que os artistas que se apresentarão no palco principal e os convidados
das mesas principais recebem pela sua participação. E vocês sabem quanto a
Academia Joseense de Letras recebeu e receberia pelo seu apoio e participação
ao longo desses dez anos de FLIM? NADA! E vocês sabem quanto os escritores locais
receberam e receberão este ano para participar da FLIM? NADA! Nada não, ganham
água e uma mesa para expor seus livros.
Qual a
dificuldade de incentivar, financeiramente, instituições e escritores locais?
Não estou falando de valores absurdos, estou falando sobre o suficiente para
pagar o estacionamento, fazer um lanche e tomar um chopp na área externa, assim
como os demais.
Outras perguntas
podem surgir, como: A AJL também é uma empresa de utilidade pública? Por que a
AJL não abre editais para realização de eventos? São excelentes perguntas e,
respondendo, sim, a AJL tem CNPJ e utilidade pública e não realizamos editais
por ausência de interesse e disponibilidade da maioria dos acadêmicos e por
desconhecimento técnico, coisa que quem sabe fazer, não compartilha para não
gerar concorrência.
Por fim, tive
uma longa conversa, por telefone, com a Zenilda Lua. Não somos próximos, mas
quero ser próximo dela e ela de mim. Ela não fala, ela ensina com as palavras, ditas e
escritas. Sou fã dela e do seu trabalho. Ela foi convidada, junto à escritora
Sônia Gabriel, para reorganizar a FLIM e não aceita o título de curadora e eu
concordo. Zenilda tem recebido duras críticas por aceitar este desafio, mas ela
está fazendo o que o coração lhe pede e sua vocação demanda: assistência social
através da literatura. Tem meu respeito, minha admiração e meus votos de
sucesso.
Com relação à Semana
Cassiano Ricardo, que a convite da AFAC, acontece durante a FLIM, não sei dizer
e não é da minha conta se eles recebem algum valor financeiro para participar.
O que eu sei é que admiro seu curador, o jornalista Júlio Ottoboni por seu
relevante e persistente trabalho em manter viva a memória de Cassiano Ricardo e
toda a nossa história. Também tem meu respeito, minha admiração e meus votos de
sucesso.
Confesso: meu
erro foi acreditar demais que alguém faria alguma coisa pela Academia Joseense
de Letras ou que que haveria uma união entre acadêmicos e escritores para
fazermos algo novo, mas não, a censura venceu, lidamos com pouco dinheiro e
muita, mas muita vaidade. Eu não tenho bagagem psicológica e política para
prestigiar este e outros eventos no momento, não tive a grandeza e a
generosidade dos meus confrades e das duas referências culturais citadas
anteriormente.
Isso foi o que
eu fiz (com o que fizeram de mim) sobre a FLIM.
Sigamos, porque aqui, Pode
Cornettah... até o prefeito censurah!
Grande abraço e até breve!
Eduardo Caetano

Pode Cornettah... conheço um pouquinho dessa história.
ResponderExcluirÉ raro ver alguém expor, com tanta clareza e vulnerabilidade, os bastidores de decisões difíceis, especialmente quando envolvem tensões políticas, institucionais e pessoais. Você demonstra respeito pela cultura, pelos escritores locais e pela integridade das instituições e isso, hoje, já é um ato de resistência.
Fica evidente que suas escolhas foram guiadas pelo compromisso com a transparência, com a ética e com a defesa de um ambiente cultural que valorize quem produz literatura de verdade. É triste ver que a vaidade, a censura e os jogos de interesse ainda conseguem minar esforços coletivos, mas a firmeza com que você se posiciona mostra que ainda há gente lutando pelo que importa.
Sua reflexão ilumina um debate que muitos preferem evitar. E justamente por isso, ela é tão valiosa. Parabéns pela lucidez, pela coragem e pela disposição de assumir as consequências de suas convicções. Que sua voz continue ecoando, ela faz falta, mas sobretudo faz diferença.
Parabéns por expor texto, narrativa e esclarecimento. Fui hj por respeito ao Silvério e homenagem a Belchior ( ambos com ideias políticas e sociais alinhadas comigo), e só. Tb me manifestei antes,lá fora. Situação constrangedora para todos.
ResponderExcluirCaro Caetano, estar a frente de uma instituição Cultural é lidar com egos e vaidades. Os bastidores da Cultura são esse tipo de ambiente. Parabéns por se posicionar e trazer à luz situações difíceis como essas.
ResponderExcluirMeu amigo Eduardo Caetano. Admiro muito teu empenho pra fazer as coisas acontecerem nesta São José dos Campos adormecida, e me solidarizo contigo em relação ao fiasco da FLIM original - censurada de forma hipócrita pelo nosso prefeito - e te digo que nem fiquei sabendo desta nova data (só soube depois que passou). Grande abraço e conte comigo quando precisar.
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